logo cabecalho edmar de almeida

Angelo Oswaldo

Ícone da arte e da fé

Angelo Oswaldo de Araújo Santos
Secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais

A paixão do artista plástico Edmar Almeida pelo ícone cristão ortodoxo parece evocar a experiência inseparavelmente poética e mística de São João da Cruz. “En una noche oscura”, como no verso do poeta espanhol, “con ansias en amores inflamada/ oh dichosa ventura”, a alma do artista brasileiro vem revelar que “sali sin ser notada” para o rosto inclinar e esquecer-se sobre o Amado. Aqui, o Esposo da Alma é o ícone.

São Gregório de Nissa lembra “o movimento inato da alma que a conduz aos cumes da beleza espiritual”. Seu irmão, São Basílio, refere “o desejo ardente e inato do belo”. O ícone traz, por sobre a imagem sacra, o ancestral culto da beleza celebrado pelo helenismo, que desaguou na teologia do belo, da qual são doutores um Miguel Ângelo e um Rafael Sânzio.

Desenhista, pintor e mestre da arte têxtil, Edmar Almeida nele vê a “transmutação do homem em luz”. Trata-se da imagem condutora “que santifica os olhos dos que a veem e eleva a inteligência à teognose mística”. O ícone é uma representação simbólico-hipostática que convida a transcender o símbolo, a comunicar o hipóstase (substância real do que é irreal), para participar do indescritível, segundo os teólogos.

Erudito estudioso da filosofia e da teologia, leitor dos pensadores gregos e dos Padres da Igreja, exegeta da obra do teólogo russo Paul Evidokimov, ele contempla o ícone como “a última flecha do eros humano enviada ao coração do Mistério”. Entregou-se à iconologia e passou a criar os seus ícones, utilizando-se de diversas linguagens plástico-visuais, sempre apaixonado pela imagem que tenta refletir as irradiações luminosas do Tabor.

É esse notável criador, mineiro de Uberlândia e cidadão do mundo helênico e latino, que a Igreja de Santo Antônio apresenta a Belo Horizonte, na exposição do tríptico do Cristo pantocrático, o Todo Poderoso, ladeado pela Virgem Maria e São João Batista. Os mais antigos ícones, desde o primeiro século cristão, retratam Maria e o Menino Jesus. No cristianismo oriental, as festividades do Natal e do Batismo de Cristo se celebram conjuntamente, pois o batismo é a verdadeira epifania, a revelação ao mundo do Deus que a ele chegou de modo velado. Por isso, o artista reuniu o Cristo, sua Mãe e o Batista.

Muito deve ao ícone a expansão do culto mariano. Maria é a “Theótokos”, a Mãe de Deus, a Senhora envolta no Sol e coroada de estrelas, e Cristo, o ungido no momento em que sobre Ele desceu o Espírito Santo paráclito e a voz do Pai o proclamou “o Meu Filho bem amado”. João Batista é o dedo de Deus a designar o Cordeiro.

Uma alegria sagrada faz do ícone um “tabernáculo celeste”. A partir da própria teologia oriental, Edmar Almeida compõe as imagens com que celebra a arte da fé e a fé na arte. Para o pintor, discípulo da paleta do evangelista São Lucas, a obra de arte é luz indissociável da energia da transcendência. É estesia e ascese, prazer e plenitude.